A Mercenária e o Arcanista

Um homem caminha sozinho pelas escuras e silenciosas ruas noturnas da pequena Ardônia, uma vila de mineradores de carvão no limite do domínio do Conde Olmos de Emrys. O vento frio do início da primavera faz sua capa balançar, fazendo o homem manter uma das mãos em seu capuz para mantê-lo sobre a cabeça.
Conversa, cantoria, gargalhadas e gritos animados são ouvidos ao longe, vindos do único lugar iluminado da vila. Quando próximo pode ver alguns homens conversando do lado de fora da única taverna da cidade, homens grandes, fedorentos e ainda cobertos com a poeira escura das minas de carvão onde trabalham. Diferente do tipo de gente que frequenta o local, o homem solitário chama a atenção de todos, sendo obrigado a empurrar um pouco a placa pendurada para conseguir espaço para entrar. O Anão Escarlate, é esse o lugar.
Atravessando a porta, o ar quente da grande lareira forçou o homem a puxar o capuz. Observando atentamente o local pode ver a pessoa que está procurando. Impressionante que aquela jovem possa ter a reputação que ouvira. Não deve ser ela.
Caminhou até o balcão – Uma cerveja, por favor – disse com a voz falha de quem está há algum tempo sem pronunciar uma palavra. Com cara de desconfiado, o taverneiro entregou uma caneca cheia com uma bebida espessa e avermelhada enquanto puxava as moedas deixadas no balcão. A caneca estava mal lavada e cheirava a frango cozido e cachorro molhado, mas a cerveja tinha um sabor agradável de algo que não conseguiu identificar.
Estou procurando pela Lança Negra, é aquela jovem? – Falou novamente o estranho, depois de beber metade da caneca de cerveja. Quanto menos vezes eu beber, menos sinto esse cheiro horrível.
Sim, é ela. Mas não te aconselho a chamá-la assim se quiser manter esses dentes brancos em sua boca, forasteiro. O nome dela é Ravyn e já derrubou homens muito maiores que você por muito menos, mas já gargalhou de ofensas maiores, não dá pra saber o que aquela ali pensa. – Respondeu o taverneiro enquanto pegava uma caneca usada e secava a bebida restante com um pano mais imundo que os pelos de um cachorro de rua que rolou na lama.
Com um aceno de cabeça, o homem deixou sua caneca inacabada, afastou-se do balcão e caminhou até a jovem. Ela estava acompanhada de dois homens, os três conversando de forma casual, todos com canecos da cerveja vermelha do local.
Boa noite senhora, procuro por uma mercenária chamada Ravyn. Por acaso é você? – Começou o desconhecido, nitidamente aflito com a atenção indesejada que estava atraindo daqueles mineradores brutamontes do lugar.
Não sou senhora nenhuma. – respondeu a jovem, bebendo o um gole da cerveja de sua caneca – Mas sim, sou Ravyn. Em que posso ajudar?
- Chamo-me Ragnar e estou aqui para negociar os seus serviços como minha guarda-costas até Porto Cachoeira, no Condado de Safeld.
- Quem mais você contratou? Não trabalho com alguns dos homens da região.
- Nenhuma pessoa a mais. Estou interessado apenas em seus serviços, estou ciente de sua competência para o trabalho.
- Enfrentar sozinha os bandidos das Terras sem Lei? Quem lhe disse que sou capaz dessa loucura?
- Todos a quem perguntei. E claro, estou disposto a oferecer um pagamento justo ao serviço.
- Entendo – completou a jovem mercenária, tomando o restante de sua cerveja de uma vez antes de levantar-se. – Com licença rapazes, tenho negócios a tratar com esse homem. Me acompanhe, Ragnar, vamos caminhar.
Os dois saíram da taverna sob os olhares surpresos de todos, possível ouvir apenas o baixo comentário de um dos homens do lado de fora. Como um frangote desses conseguiu uma mulher dessa?
- Veja bem senhor. – Começou Ravyn – O que me pede é um absurdo, ninguém consegue atravessar as Terras sem Lei sem no mínimo 5 guerreiros de escolta e você vem me propor para que te proteja sozinha?
- Pelo que ouvi, suas capacidades marciais estão além das possuídas por mercenários comuns. Entretanto, são acasos do destino que me colocaram nessa situação. Não possuo moedas suficientes para manter cinco mercenários por todo o percurso e nenhum teve a coragem de me acompanhar com os homens que consigo financiar. Além do mais, não apenas sua capacidade em combate foi enaltecida como também a sua coragem, tornando-se a primeira indicação de todos a quem perguntei a quem poderia recorrer para tal missão.
- Seus floreios com as palavras bajuladoras não irão me convencer, sei quando tentam me distrair do que é realmente importante.
- A senhorita também parece melhor educada que outros mercenários, recebeu algum tipo de ensino adequado?
- Não estamos aqui para conversar sobre o meu passado e sim para fazer negócios. Como você mesmo afirmou, minha reputação o fez vir até mim. Então não espere que meu preço seja baixo.
- De quanto estamos falando?
- Uma prata por dia de viagem, pago toda manhã.
- Uma moeda de prata? Com isso eu posso pagar dois mercenários!
- Dois mercenários que lutarão apenas por moedas, que podem te abandonar a qualquer sinal de perigo para eles. Estou lhe oferecendo honra em cumprir a minha palavra que te acompanharei e protegerei por todo o caminho, enquanto também se mostrar honrado com sua palavra. Também lhe ofereço minha lança e posso afirmar que a manuseio melhor do que sete homens de armas comuns.
- Compreendo totalmente seu valor, não me entenda mal. Mas não posso pagar tanto atualmente, posso te pagar trinta cobres por dia mais uma bonificação após alcançar meu objetivo no Vale Estreito. Você já ouviu falar na história dos tesouros do cofre anão perdido há gerações? Afirmo que possuo meios de encontrá-lo e resgatar o tesouro esquecido dentro de suas paredes e prometo-lhe uma grande recompensa quando o estiver feito.
- Lendas são criadas para atrair tolos para o lugares, que sem enriquecer com o tesouro lendário fica sem alternativa e se vêem obrigados a trabalhar nas terras de nobres locais. Suas promessas são vento, Ragnar, não enchem minha barriga, não me aquecem e não colocam um teto sobre minha cabeça. Não recebo palavras como pagamento.
- Quarenta moedas de cobre ao dia, então. E mais uma bonificação caso chegue ao destino ileso.
- Cinqüenta e mais os custos de acomodações e comida nas estalagens que encontrarmos no caminho. Sei que existem pelo menos duas por onde passaremos até chegarmos a Porto Cachoeira. E esse é um preço baixo pois me interessa partir dessas terras.
- Quarenta e cinco, as despesas e a bonificação final pela minha segurança. Esse é o máximo que posso pagar.
Ravyn suspira levemente olhando para o céu estrelado, dizendo por fim – Aceito, mas deverá me pagar a cada manhã adiantadamente, não mentirá para mim e será honrado em suas atitudes enquanto estiver sob minha proteção. Estamos de acordo?
- Absolutamente, senhora Ravyn. Encontre-me no portão ao amanhecer e partiremos o mais rápido que pudermos.
- Combinado, mas apenas mais uma condição: Não me chame de senhora! Entendido?
- Como desejar.

Com a noite avançada e as negociações acertadas, os dois se separaram para aproveitar o restante da escuridão para descansar antes de partirem para a estrada através da temível região popularmente conhecida como Terras sem Lei.

A Mercenária e o Arcanista

Crônicas de Yondária Super